CRISE NA CULTURA EM 1986

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3Depois de receber duas amargas notícias num curto intervalo de tempo, o Presidente da Fundação Cultural do Alto Paranaíba, João Marcos Pacheco, só poderia ficar arrasado. Mas reagiu e tomou as providências que julgou apropriadas: enviou cartas à Primeira Dama do município, Maria Coeli Memória Porto e ao ex-secretário da Cultura de Minas e atual Governador do Distrito Federal, José Aparecido de Oliveira, um dos responsáveis pela liberação da verba que possibilitou o incremento das atividades do Centro de Artes da FUCAP.

Ao contrário da carta “seca” enviada à Fundação pela Casa das Representações, comunicando a impossibilidade de renovar o contrato de locação do imóvel ocupado pela FUCAP, João Marcos Pacheco se dirigiu, tanto a Maria Coeli, quanto ao Governador José Aparecido, de forma emocionada e, em alguns momentos, até desesperada. “Que sua resposta venha logo; nosso desespero e desamparo é muito grande, quase insuportável”, comprova o início do penúltimo parágrafo da carta ao Governador de Brasília.

“Queira ou não, o senhor é nosso padrinho”, diz o Presidente da FUCAP a José Aparecido, referindo-se à intervenção dele junto ao MEC, o que valeu, ao final de 1983, a liberação de Cr$ 7,5 milhões, com os quais foram adquiridos um piano, um órgão, móveis e equipamentos para o Centro de Artes. Mais adiante, João Marcos observa que “o sonho acabou!… Fazer o quê?!… Ir para onde?!…”. É como na poesia de Carlos Drummond de Andrade: “E agora, José?”. Quando se perde algo construído e mantido com amor a sensação é de vazio total, absoluto.

Sobre o patrimônio, ele disse à Primeira Dama: “… instrumentos, equipamentos, móveis e utensílios, adquiridos com grande esforço, que não sabemos e nem temos onde guardar, caso ocorra a paralisação das atividades do Centro de Artes da FUCAP. Além de tudo isso, são no mínimo quatro anos de esforços jogados por terra”. O Presidente encerra a carta dizendo de sua confiança no apoio de Maria Coeli e na sua intervenção no sentido de sensibilizar a administração municipal. Se a Primeira Dama tem tentado buscar soluções para os problemas da FUCAP junto ao Prefeito Arlindo Porto Neto, ninguém pode garantir. Todavia, até o dia 29 de setembro, nenhuma resposta havia sido dada aos diretores da FUCAP, o que significa 40 dias de silêncio, já que a carta a ela entregue data do dia 20 do mês de agosto.

Ao Governador do Distrito Federal e 1.º Secretário de Estado da Cultura de Minas Gerais, José Aparecido, João Marcos Pacheco reclama do problema financeiro que bloqueia a atividade cultural. “Se o que nos faltasse fosse quem se interessasse pelo estudo artístico e pela prática do fazer cultural, doeria menos. Se o que nos faltasse fosse talento e capacidade de trabalho seria menos doloroso”, observa ele em dado momento. Na verdade o que falta é condição financeira para a aquisição de um imóvel onde pudesse funcionar o Centro de Artes da Fundação e onde pudesse ser desenvolvido o setor de teatro da mesma FUCAP.

Ao final da carta a José Aparecido, João Marcos Pacheco faz referência ao aspecto mais tocante de todas as dificuldades pelas quais está passando a cultura patense, e especialmente as pessoas ligadas ao Teatro Telhado e ao Centro de Artes da FUCAP. Ou seja, a sensação de perda de cada um. Depois de falar sobre seu desespero e desconsolo diante da atual situação, ele comenta: “se nós – ainda no meio do caminho – nos sentimos assim tão deprimidos, imagine o senhor como deve se sentir nosso diretor, orientador e iniciador, o Sr. Vicente Nepomuceno, com quem aprendemos quase tudo, e que hoje, apesar de sua aparência e disposição ainda jovens, já passa dos setenta anos”.

CARTA DA CASA DAS REPRESENTAÇÕES À FUCAP

Prezados Senhores, levamos ao seu conhecimento que devido à necessidade de ampliarmos o espaço destinado à nossa filial, não poderemos renovar o contrato de locação do imóvel ocupado por VV. SS., a vencer em 30 de setembro próximo futuro.

Certos de sua compreensão subscrevemo-nos atenciosamente, Casa das Representações S/A.

Nestes termos, o Centro de Artes da FUCAP estava intimado a deixar o imóvel onde funciona, na Farnese Maciel, pagando aluguel de Cr$ 885,70 mensais e contando com 152 alunos, distribuídos nas áreas de música (88), desenho e pintura (25), dança e ballet clássico (39), mais de 10 professores e 3 funcionárias. Lá estão, hoje, instrumentos valiosos, equipamentos de som e iluminação que, por enquanto não possuem um destino certo. Mas, a verdade é que Patos de Minas corre também o risco de perder, além do Teatro Telhado¹, o Centro de Artes da FUCAP, que não tem para onde ser transferido.

É inconcebível que tudo isso aconteça e que as autoridades, os políticos, os “representantes do povo” fiquem de braços cruzados, assistindo de seus camarotes o desenrolar da luta, enfrentada sem armas potentes (recursos financeiros) pelas pessoas que militam no setor cultural patense. Um esforço e um trabalho de anos e anos jogado por terra em questão de dias é capaz de frustrar qualquer pessoa, entusiasta de qualquer setor.

* 1: Leia  “Fim do Teatro Telhado”.

* Fonte: Texto publicado com o título “E Agora, José?” na edição n.º 148 de 30 de setembro de 1986 da revista A Debulha, do arquivo do Laboratório de Ensino, Pesquisa e Extensão de História (LEPEH) do Unipam.

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