DOAÇÃO DO TERRENO PARA A CONSTRUÇÃO DA VILA OLÍMPICA DA URT: UM CASO DE POLÍTICA

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Tudo parecia muito simples: a URT enviaria uma cópia do projeto de construção de sua sede campestre – a tão sonhada e comentada Vila Olímpica – para o Prefeito Arlindo Porto, e este encaminharia um Projeto de Lei à Câmara Municipal, solicitando autorização para doar um terreno à Veterana, onde seria implantado o clube. Mas nada disso aconteceu. Depois de manter uma reunião prévia com edilidade patense – costumeira antes de cada Sessão daquela Casa Legislativa – na qual não compareceu número de vereadores suficientes para avaliar o projeto, Arlindo Porto adiou a decisão de enviá-lo ou não para ser votado pelos vereadores.

A decisão de retirar o projeto de autoria do Executivo veio mais tarde, depois que a Câmara (agora com número suficiente de vereadores) entendeu que não deveria aprovar o projeto de doação do terreno “em sua quase totalidade de membros”, conforme decretaria na segunda-feira, o Prefeito Arlindo Porto. O “bafafá” começou tão logo foi realizada a Sessão Ordinária da Câmara Municipal, nos dias 1, 2 e 3 de setembro. Diretores da URT detonaram pronunciamentos na imprensa, sobretudo falada, contra a decisão da Administração (Poderes Executivo e Legislativo) de não proceder a doação do terreno ao clube da Avenida Brasil.

Nas entrevistas concedidas às rádios (principalmente), uma pessoa, como sempre acontece, desde que assumiu a presidência da URT, foi aquela que mais bradou: Rui de Paula Medeiros. Os desportistas, o povo patense, e mais acentuadamente a torcida da URT, ficou sem saber o que estava acontecendo; apesar de o coração dizer que era inconcebível a Prefeitura não querer doar o terreno para o único clube profissional da cidade construir sua sede campestre e conquistar, definitivamente, sua “independência financeira”. O bombardeio contra a decisão da Administração Municipal teria em poucos dias um saldo positivo, para a URT pelo menos: a obtenção do terreno.

Votos da torcida – O terreno foi conseguido finalmente. Com objetivos nunca revelados, mas evidentes, Elmiro Alves do Nascimento e Wando Pereira Borges, candidatos pelo PFL à Assembléia Legislativa e Câmara dos Deputados, respectivamente, doaram o terreno à Veterana. Como se aproximam as eleições de novembro e a URT possui uma numerosa e apaixonada torcida, nada mais natural do que a disputa entre candidatos (e partidos) pela simpatia e pelos votos da família ueretense. Se o presidente do clube, Rui de Paula Medeiros, já havia demonstrado preferência por Elmiro Nascimento, agora a torcida também o faria.

Mas, se por um lado o impasse criado pela não doação do terreno pela Prefeitura poderia (e poderá) trazer um ganho considerável de votos a Elmiro e Wando, por outro lado, Bernardo Rubinger e José Mendonça de Morais, candidatos aos mesmos postos pelo PMDB, apoiados por Arlindo Porto, correm o risco de contar menos votos entre os torcedores alvecelestes. Isso foi percebido pelo prefeito e seus assessores tão logo se teve a notícia da doação feita pelos candidatos do PFL à URT. A resposta viria então em seguida. E que outra pessoa haveria de dar uma resposta pronta e concisa que não o próprio Prefeito Arlindo Porto?

E ela veio no dia 15 de setembro. Arlindo Porto convidara toda a imprensa patense para estar às 11 horas em seu gabinete, quando falaria de um assunto muito importante para Patos de Minas. Não obstante todo o evidente “rumo político” que tomou o caso da não doação do terreno pela municipalidade, o pronunciamento feito por Arlindo Porto no dia 15 realmente foi importante para esclarecer algumas coisas e suficiente para levantar dúvidas sobre outras.

Esclarecimento – Depois de dizer que não estava ali para se defender e de comunicar que não responderia perguntas, mas apenas faria um “esclarecimento da atual postura da Administração Municipal, do Legislativo e do Executivo”, Arlindo Porto falou das razões que levou à retirada do projeto de junto daqueles que o Executivo enviaria aos vereadores, motivado pela própria evidência de que o mesmo não teria aprovação dos legisladores municipais, se votado. Em primeiro lugar, ficou claro que o projeto não foi considerado de abrangência social e que a URT só poderia negociar suas cotas (6.000 títulos de sócios proprietários) após a conclusão da obra, prevista na minuta do contrato para o final de 1988.

Com isto, a propagada independência financeira da URT ainda em 87, tema de verdadeiros discursos de diretores da Veterana no rádio, foi jogada por terra, pois o contrato prevê que a venda dos 6.000 títulos só poderia ser feita depois de concluída a obra. Mas o “chumbo grosso” estaria por vir. Sem citar, em momento algum, o nome da empresa contratada para a construção da Vila Olímpica, Arlindo Porto detonou uma série de disparos certeiros na reputação da Constril (Construtora no Triângulo Ltda.). “Documentos em nosso poder temos para demonstrar que aquela empresa não tem cumprido regularmente com seus compromissos”, disparou o Prefeito.

Dito isso, Arlindo Porto foi retirando de uma pasta os documentos que comprovavam a sua denúncia. “Coloco à disposição do povo patense, os documentos que estão em meu poder”, disse Arlindo. “Certidões que identificam 8 ações em execução tramitando no Forum de Araguari, 2 cartas predatórias (sic), tramitando na Comarca de Uberlândia e Araguari, em nome de diretores deste grupo; uma certidão de ação de execução que corre na Comarca de Araguari, encontra-se também em minhas mãos uma certidão do Cartório de Registros de Protestos, onde 8 títulos estão processados contra a mesma empresa”, folheou o currículo da Constril o Prefeito Arlindo Porto.

Dúvidas – Se o pronunciamento do Prefeito esclareceu os motivos da não doação do terreno pela Prefeitura e deixou claro também que a URT não teria pela minuta do contrato a ele apresentada, sua independência financeira alcançada em 1987, como vinha sendo propagado por diretores, isso não dá solução ao caso. A disputa entre a Paula Tavares e a Constril e as divergências surgidas dentro da própria URT sobre qual das duas empresas seria a contratada, pode ter levado alguns diretores a cometer besteiras bem maiores do que as declarações sobre a independência financeira do clube no ano que vem. Apesar de não existir provas concretas, não está afastada a possibilidade de “certos” diretores estarem envolvidos num, também não confirmado, suborno por optarem pela contratação da Constril e não da Paula Tavares.

Fica agora, o dito pelo não dito. Depois de todas as disputas, no rádio principalmente, pelos votos da torcida uerretense, uma coisa precisa ser dita, seja a verdade qual for: “não podemos permitir que o povo de Patos de Minas seja ludibriado”. Palavras do Prefeito Arlindo Porto, no dia 15 de setembro, em seu gabinete.

* Fonte: Texto publicado na coluna Esportes com o título “Um Caso de Política” e subtítulo “A não doação, pela Prefeitura, do terreno para a construção da Vila Olímpica da URT pode trazer perda e ganho de votos” no n.º 148 de 30 de setembro de 1986 da revista A Debulha, do arquivo de Eitel Teixeira Dannemann, doação de João Marcos Pacheco.

* Foto: Primeiro parágrafo do texto original.

* Edição: Eitel Teixeira Dannemann.

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