JAQUETA DE COURO, A

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Mulher diferenciada é a Mara Catu Piri Reis, esposa de um comerciante no Bairro Vila Garcia, onde também residem numa, não luxuosa, mas confortável casa de imenso quintal que, os dois já não suportando mais as investidas dos especuladores imobiliários, estão pretendendo vender o imóvel para a construção de um edifício de 10 andares.

Certa vez, a Mara foi ao posto de saúde do Bairro Novo Horizonte porque estava sentindo uma dorzinha no dedão do pé esquerdo. Durante a consulta, danou a falar ao médico que a tal dorzinha lhe incomodava há três semanas e, pensando no pior, até imaginou um câncer e que tinha poucos dias de vida. O doutor, após o exame, verificou que se tratava apenas de um joanete por causa dos sapatos de salto alto e apertados que ela tinha por costume usar. Mesmo com esse diagnóstico simplório e sem problemas para a saúde dela, a Mara não se conformou e danou a chorar clamando que aquilo era um câncer e que ela tinha pouco tempo de vida. Desanimada, perguntou ao médico quanto tempo lhe restava. O doutor respondeu:

– Pouquíssimo tempo, minha senhora, pouquíssimo tempo.

A Mara se desesperou, aprontou tal choradeira que o médico tratou logo de explicar para encerrar aquele drama:

– Dona Mara, a senhora tem pouquíssimo tempo, aliás seu tempo acabou, porque tenho mais um monte de pessoas para atender. Vá tranquila e faça o que lhe recomendei.

Por coincidência, naquele dia era aniversário da Mara. Vindo do trabalho, o marido encontrou a esposa deitada no sofá com semblante caído. Ela contou seu drama, ele abraçou-a com carinho dizendo que não se preocupasse porque o médico estava certo e que parasse com essa bobagem de câncer no dedão, pois era um simples caso de joanete. Entretanto, ela já estava pronta para reclamar ao marido por, desde manhã, não ter lembrado de seu aniversário, como já tinha acontecido várias vezes.  Mas desta vez o marido não tinha esquecido e lhe ofertou um belo presente: uma linda jaqueta de couro legítimo. A Mara, ainda pesarosa, mesmo assim se maravilhou perante o espelho o quanto a peça lhe caiu bem. Então comentou:

– Obrigado, só sinto pena que tenha vindo de um animal.

Dizem que a discussão foi ouvida até na Rua Ponto Chic e que só foi serenada depois que, após horas de explicação da Mara, o marido entendeu que o animal a que a esposa se referia não era ele e sim o boi ou a vaca que forneceu o couro. O tempo passou, a vizinhança de olho, e nunca se viu a Mara Catu Piri Reis trajando uma jaqueta de couro legítimo, seja lá de boi ou de vaca. Ou quem sabe de cabra, ovelha ou cabrito. Só se sabe que, poucos dias depois, uma moça conhecida no bairro por… deixa prá lá,  zanzou pelas redondezas e até no Parque de Exposições numa Festa do Milho com uma jaqueta de couro.

Coincidência!

* Texto: Eitel Teixeira Dannemann.

* Foto: Montagem de Eitel Teixeira Dannemann sobre foto publicada em 01/02/2013 com o título “Casa do Hugo – 1”.

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