OVO E A GALINHA, O

Postado por e arquivado em ARTES, FERNANDO KITZINGER DANNEMANN, LITERATURA.

Naquela manhã de quinta-feira, os freqüentadores costumeiros da rodinha de bate-papo do Bar Pererê discutiam um assunto polêmico: a inocência infantil. O advogado trabalhista Chico Silva, incansável defensor dos trabalhadores vitimados pelo bilhete azul sem justa causa, alegava que as crianças são criaturas inocentes pela própria natureza, porque nascem livres e puras de qualquer mácula moral. Infelizmente, à medida que crescem – afirmava o causídico – é que surgem os problemas, porque paulatinamente elas vão sendo contaminadas pela degradação de pensamentos, palavras e obras que hoje domina a sociedade.

Em tese, todos concordavam com a opinião manifestada pelo companheiro de conversa, mas o ponto central da discussão, ou seja, que providência poderia ser tomada para que a decência, os bons modos e as virtudes voltassem a ditar as regras de comportamento, é que provocava sérias divergências entre os participantes do pequeno debate. O Sandoval Pinheiro, dono de uma fazendola do outro lado do rio Águaprarriba, e que até aquele momento não abrira a boca para emitir qualquer opinião sobre o assunto, pediu licença e argumentou:

– Isso não tem jeito não, gente, porque numa sociedade permissiva como a nossa, de que forma vamos conseguir botar freio no comportamento humano? As coisas acontecem à vista de todos, ninguém fala nada, as pessoas aprendem, passam a fazer o mesmo, e dentro de algum tempo o que era inaceitável passa a ser aceito por todos como coisa normal e corriqueira.

– Não é bem assim – ponderou o Hildebrando Mesquita, funcionário público municipal aposentado e atento observador do que se passava em Periquitinho Verde.

– Não é não? Pois eu vou lhe contar um caso acontecido outro dia mesmo, na agência bancária onde eu estava. Logo atrás de mim, na fila, postou-se uma mulher aparentando uns trinta anos de idade, tendo ao lado uma menina de uns sete, mais ou menos. Quase na mesma hora passou por nós uma outra senhora levando na mão duas ou três dessas bandejas de doze ovos, e ao vê-la, a menina perguntou curiosa:

– Mãe, é verdade que eu nasci de um ovo?

– Não, filha, você nasceu da mesma forma como nascem todas as pessoas.

– A senhora tem certeza disso?

– É claro que tenho. Mas por que é que você está me fazendo essa pergunta?

– É porque hoje de manhã, quando eu cheguei da escola e entrei no elevador do prédio, dois homens também entraram, e aí um deles passou a mão na minha cabeça, olhou para o outro e disse com um sorriso no rosto: “Essa menininha bonita é filha daquela galinha lá do quinto andar!”.

E o Sandoval Pinheiro completou:

– Entendeu?

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