Aos 80 anos de idade, Seu Ladislau aparenta um vigor admirado por muitos mais jovens do que ele. Aposentado, após mais de cinquenta anos de labuta honrada, sua rotina é sair de casa de manhã, nas imediações da Praça Josefina Mourão, caminhar em passos tranquilos pelo Centro, saborear uma xícara de café no balcão de uma das lanchonetes da região, e depois se dirigir para se juntar a uma turma de amigos em frente ao antigo Fórum. Lá, o papo vai longe, de tudo um pouco, principalmente sobre os glamorosos idos que, para eles, jamais se repetirão.
Mas eis que, a esposa, os filhos e também os amigos, perceberam que Seu Ladislau estava sendo repetitivo em muitos assuntos. E ainda, esquecendo rapidamente do que havia feito e do que devia ser feito. A coisa se complicou quando ele começou a reclamar de uma dor no olho esquerdo. Levado ao oftalmologista, nem glaucoma ou qualquer infecção foi encontrado para justificar a dor aparente.
Os dias foram passando e o Seu Ladislau reclamando da dor no olho esquerdo. Até que surgiu um vermelhidão e a reclamação de dor acentuada. Mais uma vez o idoso foi levado ao oftalmologista e lá foi constado algum tipo de trauma. Mas que tipo de trauma? O Seu Ladislau não se lembrava de nenhum trauma no cito olho.
E assim, mais dias foram se sucedendo e a vermelhidão do olho se acentuando concomitante com a dor. O oftalmologista asseverou que o problema era causado por traumatismos sequenciais, isto é, o olho esquerdo do Seu Ladislau estava sofrendo uma agressão constante. Mas o idoso não se lembrava de jeito algum de qualquer traumatismo que ele tenha sofrido no tal olho.
Mistério! Em casa, nenhum dos familiares presenciaram traumatismo no olho esquerdo do Seu Ladislau. A turma do Fórum, enquanto o idoso presente, também não. Mas, afinal, onde o Seu Ladislau estava sofrendo o famigerado traumatismo no olho esquerdo?
Um dos filhos resolveu seguir o pai. Seu Ladislau, como sempre fazia todas as manhãs, saiu de casa, tranquilamente. Subiu a Rua General Osório até a sua colega Major Gote. O filho, como detetive, seguindo. O idoso entrou numa lanchonete, sentou num banco do balcão e pediu a tradicional xícara de café. Com a pequena colher, colocou duas porções de açúcar, mexeu bem e levou a xícara à boca para saborear a bebida. Pimba, o filho matou a charada.
Simplesmente, já com as ideias um pouco atrapalhadas, Seu Ladislau não tirou a colher da xícara. Levando a xícara à boca, o cabo da colher batia em seu olho esquerdo. Toda vez que ele dava um gole, o cabo da colher batia em seu olho esquerdo. Uma vez só, nada preocupante. Entretanto, isso acontecendo há muitos dias seguidos, estava explicado o grande mistério da vermelhidão e das dores no olho esquerdo do Seu Ladislau, que não tinha a mínima noção de que aquilo estava acontecendo. Ele simplesmente pagava e saia da lanchonete coçando o olho.
O resultado é que o Seu Ladislau não mais frequentou a lanchonete e só se encontra com a sua tradicional turma com algum parente. Assim, acontece com muitos idosos, infelizmente, na Lei natural da Vida!
* Texto: Eitel Teixeira Dannemann.
* Foto: Montagem de Eitel Teixeira Dannemann sobre foto publicada em 21/02/2014 com o título “Casa de Abate e Currais do 1.º Matadouro Municipal”.
